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Ouro no lixo eletrónico: como a ETH Zürich recupera ouro com resíduos de queijo

Jovem a examinar placa eletrónica numa mesa com componentes eletrónicos e utensílios de laboratório.

Quando se deita fora um telemóvel antigo ou um portátil avariado, a sensação é de estar apenas a livrar-se de um aparelho. Na prática, está muitas vezes a entregar um pequeno armazém de matérias-primas - com ouro, prata e outros metais que foram extraídos da terra com grande esforço. Investigação recente ajuda a perceber quanto ouro existe, de facto, nos nossos equipamentos e aponta um caminho para o recuperar de forma muito mais limpa do que o garimpo e a mineração tradicionais.

Ouro no lixo eletrónico: o que está mesmo dentro dos nossos aparelhos

Todos os anos, o volume de lixo eletrónico no mundo aumenta em milhões de toneladas. Smartphones, portáteis, routers, servidores, televisores, fontes de alimentação - uma parte acaba no lixo indiferenciado, outra segue para exportação e muita coisa fica esquecida em gavetas. O que parece sucata sem valor é, na realidade, uma verdadeira “jazida urbana”.

"Numa tonelada de restos eletrónicos de alta qualidade há, muitas vezes, mais ouro do que numa tonelada de rocha de muitas minas."

Alguns estudos indicam valores de até 400 gramas de ouro por tonelada de placas eletrónicas (placas) já triadas. Em comparação, muitas minas de ouro consideradas rentáveis operam com apenas alguns gramas de ouro por tonelada de minério. Ou seja: um saco cheio de placas-mãe desmontadas não representa só lixo - é um stock de metais bastante concentrado.

E o ouro é apenas uma parte do quadro. Em placas e componentes encontram-se, de forma típica:

  • Cobre - para cablagens e pistas condutoras
  • Prata - para contactos especialmente condutores
  • Níquel - como camada de proteção e metal de liga
  • Paládio - por exemplo, em condensadores
  • Ouro - para contactos extremamente fiáveis e resistentes à corrosão

No caso do ouro, a substituição por materiais mais baratos não é assim tão simples. Conduz muito bem, quase não reage com o ar e a humidade e ajuda a garantir que os contactos continuam a funcionar com fiabilidade mesmo após anos.

Porque é que há ouro nas placas - e em que zonas aparece?

O ouro não entra na eletrónica por acaso. É usado precisamente onde falhas seriam caras ou perigosas. É comum encontrá-lo em:

  • conectores e encaixes em computadores e servidores
  • superfícies de contacto em placas-mãe e placas gráficas
  • contactos minúsculos em cartões SIM e módulos semelhantes
  • componentes especiais em telecomunicações e tecnologia médica

Ao observar placas antigas com mais atenção, notam-se áreas douradas: pinos pequenos, réguas de contacto, superfícies revestidas. E não é “só uma película” sem importância - somado, o total pode ser relevante.

O ponto crítico, porém, não é apenas a quantidade existente, mas a forma de lá chegar: tradicionalmente, a recuperação de ouro recorre a químicos, temperaturas elevadas e muito gasto energético. É aí que o problema se torna evidente.

O lado sujo da reciclagem de ouro

Em várias regiões do mundo, os resíduos eletrónicos continuam a ser tratados com métodos extremamente agressivos. Placas são queimadas em fogueiras a céu aberto. Metais são extraídos com mercúrio ou com ácidos muito corrosivos. Trabalhadores sem proteção respiram fumos tóxicos, crianças remexem em resíduos, e solos e rios ficam danificados durante muito tempo.

"O valor de alguns gramas de ouro é muitas vezes pago com ar envenenado, água contaminada e riscos graves para a saúde."

Mesmo instalações modernas de reciclagem tendem a depender de química complexa, temperaturas altas e consumo elevado de energia. Pode compensar economicamente, mas deixa uma pegada ambiental considerável. Assim, a ideia original - reciclar como alternativa mais ecológica à mineração - acaba por se concretizar apenas em parte.

Abordagem suíça: ouro de placas com a ajuda de resíduos de queijo

É precisamente aqui que entra uma equipa de investigação da ETH Zürich. Os investigadores desenvolveram um método para retirar ouro do lixo eletrónico usando proteínas de soro de leite - um subproduto da produção de queijo.

Como o método funciona, em traços gerais

De forma simplificada, o processo pode ser descrito assim:

  • Dissolução: componentes selecionados, sobretudo placas, são colocados em solução de forma controlada, fazendo com que os metais passem a existir como iões num meio líquido.
  • Filtro de proteínas: as proteínas do soro são tratadas para formarem estruturas finas e fibrosas. Estas fibrilas conseguem ligar-se de forma direcionada a certos iões metálicos - especialmente aos de ouro.
  • Separação: as fibrilas carregadas com ouro são filtradas para fora da solução.
  • Aquecimento: ao aquecer, os resíduos orgânicos de proteína queimam, e o que fica é uma pequena esfera de ouro de elevada pureza.

Os resultados de um ensaio chamam a atenção: a partir de 20 placas-mãe desmontadas, a equipa obteve cerca de 450 miligramas de ouro com pureza de 22 quilates. Isto equivale a quase meio grama - proveniente de material que, em muitas casas, iria simplesmente parar ao lixo.

"Contactos banhados a ouro de 20 placas-mãe dão uma pérola de ouro - quase meio grama, reciclada de forma limpa."

Também é interessante a lógica do sistema: o método cruza dois fluxos de resíduos ao mesmo tempo - lixo eletrónico e sobras de soro - e transforma-os numa matéria-prima utilizável.

Isto pode funcionar em grande escala?

A ideia pode soar simples, mas levar o conceito para uma escala industrial continua a ser exigente. Antes de tudo, é preciso recolher, separar e pré-processar grandes quantidades de equipamentos usados. E este primeiro passo falha muitas vezes no dia a dia por conveniência e falta de infraestrutura.

Muitas famílias acumulam:

  • caixas com telemóveis antigos e carregadores
  • routers, modems e set-top boxes avariados
  • robots aspiradores, tablets e câmaras digitais
  • portáteis e componentes de PC fora de uso

Nas empresas, o cenário não é necessariamente melhor. Servidores antigos, armários de rede e eletrónica especializada ficam guardados em armazéns; são abatidos contabilisticamente, mas não são encaminhados para reciclagem. Sem este fluxo de matéria-prima a chegar a operadores profissionais, qualquer tecnologia - por mais inteligente que seja - fica confinada a nichos.

O que seria necessário numa nova cadeia de reciclagem

Para recuperar ouro de eletrónica de forma limpa, são essenciais quatro elementos:

Elemento Papel no processo
Pontos de recolha Locais de entrega fáceis de usar em cidades, no comércio e nas autarquias
Pré-triagem Separação de carcaças, cabos, baterias e das placas relevantes
Preparação Trituração, remoção de componentes problemáticos, preparação da solução
Recuperação de metais Processos de base biológica ou química para extrair ouro de forma seletiva

Quanto melhor for a recolha e a triagem no início, mais eficiente e com menor impacto ambiental será a extração final de metais como o ouro.

O que isto implica para consumidores e cidades

Para os particulares, o tema tem menos a ver com tecnologia e mais com hábitos. Equipamento eletrónico antigo não deve ir para o lixo indiferenciado: deve ser entregue num ecocentro ou num ponto de retoma no comércio. Guardar dispositivos durante anos significa, na prática, bloquear matérias-primas valiosas.

"Cada telemóvel esquecido numa gaveta representa metais que terão de ser extraídos de novo, sem necessidade."

Cidades e municípios podem influenciar muito: contentores de recolha bem visíveis, serviços móveis de recolha, campanhas de informação, parcerias com lojas de eletrónica. Quanto mais simples for entregar, maior a probabilidade de os aparelhos seguirem esse caminho - e não o caixote do lixo.

Para a indústria, há ainda outro ângulo: recuperar ouro do lixo eletrónico pode tornar cadeias de abastecimento mais resilientes. Se uma parte da necessidade puder ser coberta por fluxos regionais de reciclagem, reduz-se a dependência de regiões mineiras instáveis e de rotas de transporte sujeitas a interrupções.

O que significam ouro, quilates e pureza

No contexto do estudo suíço, aparece frequentemente a indicação “22 quilates”. Em ouro, o quilate expressa o grau de pureza: 24 quilates corresponde a ouro quase puro; 22 quilates significa cerca de 91,6% de ouro. O restante é composto por outros metais, como cobre ou prata, que tornam o material mais duro.

Na joalharia, 14 ou 18 quilates são comuns. Na eletrónica, o valor exato em quilates tende a ser menos determinante - o que conta é a elevada condutividade e a resistência à corrosão.

Riscos e oportunidades que se desenham

Mesmo processos de reciclagem de base biológica não funcionam por magia. Primeiro, é necessário transferir o ouro da placa para uma solução - e, se isso for feito de forma errada, também pode causar problemas ambientais. O desafio está em desenhar operações com normas de segurança claras, circuitos fechados e reutilização dos reagentes o maior número de vezes possível.

Do lado das oportunidades, há um cenário plausível: regiões com forte utilização de eletrónica - na prática, todos os países industrializados - podem suprir parte da procura de metais a partir do seu próprio “lixo”. Oficinas, empresas de reciclagem e PME especializadas podem criar novos modelos de negócio, da desmontagem à preparação e, por fim, à reciclagem avançada com filtros de base biológica.

Para os consumidores, o que se pede não é complicado: usar os equipamentos durante mais tempo, valorizar serviços de reparação e encaminhar eletrónica em fim de vida para os pontos de entrega certos. Em muitas cidades, isto resolve-se com uma única deslocação ao ecocentro. Assim, o “tesouro” de ouro no lixo eletrónico não fica preso numa gaveta - passa a circular onde mais interessa: no ciclo de materiais.


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